domingo, 1 de agosto de 2010

É isso: tudo está ao alcance do homem e tudo lhe escapa, em virtude de sua covardia... Já virou até axioma. Coisa curiosa a observar-se: que é que os homens temem, acima de tudo? – O que for capaz de mudar-lhes os hábitos: eis o que mais apavora...


Ora veja... é o que sempre acontece com as pessoas românticas: enfeitam uma criatura, até o último momento, com penas de pavão, e não querem ver, vela, senão o que é bom, muito embora sentindo tudo ao contrário. Jamais querem, antecipadamente, das às coisas o seu devido nome. Essa simples idéia lhes parece insuportável. A verdade, repelem-na com todas as forças, até o momento em que aquela pessoa, engalanada por elas próprias, lhes mete um murro na cara.


Os sonhos de um homem doente tomam, sempre, um relevo extraordinário a ponto de a própria realidade confundir-se com eles. O quadro que, assim, se desenrola é por vezes monstruoso, mas o fundo, no qual se desenvolve, e todos os meandros da representação são, por sua vez, de tal modo verossímeis, cheios de minúcias tão imprevistas, tão engenhosas e tão adequadas, que o próprio indivíduo que os sonha seria, certamente, incapaz de inventá-los acordado.



F. Dostoiévsky

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