segunda-feira, 28 de junho de 2010

Sente-se amado aquele que se sente aceito, que se sente bem-vindo, que se sente inteiro. Sente-se amado aquele que tem sua solidão respeitada, aquele que sabe que não existe assunto proibido, que tudo pode ser dito e compreendido. Sente-se amado quem se sente seguro para ser exatamente como é, sem inventar um personagem para a relação, pois personagem nenhum se sustenta muito tempo. Sente-se amado quem não ofega, mas suspira; quem não levanta a voz, mas fala; quem não concorda, mas escuta.



Beijo é maravilhoso porque você interage com o corpo do outro sem deixar vestígios, é um mergulho no escuro, uma viagem sem volta. Beijo é uma maneira de compartilhar intimidades, de sentir o sabor de quem se gosta, de dizer mil coisas em silêncio. Beijo é gostoso porque não cansa, não engravida, não transmite o HIV. Beijo é prático porque não precisa tirar a roupa, não precisa sair da festa, não precisa ligar no dia seguinte. E sem essa de que beijo é insalubre porque troca-se até 9 miligramas de água, 0,7 grama de albumia, 0,18 de substâncias orgânicas, 0,711 miligrama de matérias gordurosas e 0,45 miligrama de sais, sem contar os vírus e as bactérias. Quem está preocupado com isso? Insalubre é não amar.



Me permitir ser um pouco insignificante. E na minha insignificância, poder acordar um dia mais tarde sem dar explicação, conversar com estranhos, me divertir fazendo coisas que nunca imaginei, deixar de ser tão misteriosa pra mim mesma, me conectar com as minhas outras possibilidades de existir.




Paciência só para o que importa de verdade. Paciência para ver a tarde cair. Paciência para tomar um cálice de vinho. Paciência para a música e para os livros. Paciência para escutar um amigo. Paciência para aquilo que vale nossa dedicação. Pra enrolação, atalho. O menor possível.



M. Medeiros

domingo, 20 de junho de 2010


É difícil carregar a solidão, mas mais difícil é carregar uma companhia

L. F. Telles

terça-feira, 15 de junho de 2010


Reinventar-se também significa criar um novo personagem para assumir determinadas facetas que o próprio ego já não dá conta de administrar...


(Plastic Dreams - Melissa et Circenses) ARAUJO, Jackson

domingo, 13 de junho de 2010


Ninguém se importa. Ninguém se importa com ninguém, o homem é apenas um pedaço de carne, esta bem? Carne de porco, carne de vaca, quem se importa?

[...]

Eu sou nulher diferente, não ligo para esses preconceitos idiotas, eu ovu te contar uma coisa, eu tinha doze anos, eu acordei na boléia do caminhão do meu pai. Acordei e estava sozinha, desci no carro chamando meu pai, sabe onde estava meu pai? No acostamento, caído, eu vi sangue, muito sangue, vi que ele não respirava mais, sabe o que eu fiz? Lembrei de um filme que assisti na televisão, a mulher se fodia o tempo todo, aí ela se encheu, levantou a espada, não tinha espada, não sei por que eu falei espada, ela se encheu e disse para o céu: nunca mais hei de passar fome. Eu fiz a mesma coisa, nada nesse mundo vai ser capaz de me fazer sofrer, eu disse, nunbca mais, eu disse, ninguém, nunca, eu prometi, e foi assim.

[...]

Tem sempre alguma coisa, alguma coisa aqui dentro, aqui no meu tórax, alguma coisa viva e enferrujada, eu sinto que você também é assim, nós dois, a gente prepara a felicidade, um futuro legal, mas quando o futuro chega, a gente não se sente bem dentro dele.

[...]

O medo é uma coisa engraçada. Ele vai afundando o seu peito, inchando a sua barriga, e sem que você perceba tudo o que você tem de bom começa a vazar. Pelo menos, foi assim que aconteceu comigo.

[...]

Eu não estava muito longe de entender que existe o lado de lá e o lado de cá, e que não se muda de lado. Nunca. Você pode até pensar que mudou, eles fazem você pensar isso, entre e feche a porta, eles dizem, você entra, você acha que está ali, você fecha a porta, você acha que mudou, mas não, na verdade não é mudança, se você está do lado de lá é porque eles estão precisando de alguém para lavar o banheiro de mármore deles. É isso simplesmente.

[...]

Às vezes, eu disse, às vezes, eu tenho a impressão de que o mundo está de costas para o homem, o homem de costas para Deus, Deus de costas para o mundo, uma zorra completa, você não tem?

[...]

Kamikaze, você se lembra? Eu tenho uma teoria, Érica. O homem, Érica, o homem quando lambe a fama, perde o caráter. É isso. Você fica famoso eo problema da fama é que ela faz você acreditar no que os outros dizem de você. Você entra naquela paisagem, é azul, e voc ê vai escorregando naquela lama azul, vai rolando ladeira abaixo até se foder completamente. Foi o que aconteceu comigo, Não posso dizer que eu demorei para aprender a lição. Eu aprendi rápido demais, logo no primeiro dia, aprendia todo dia, para falar a verdade. Mas aprendia e fazia tudo para esquecer no dia seguinte, essa era o problema. O sucesso, Érica, o sucesso, isso é uma regra, o sucesso não pode durar. O sucesso exige algumas coisas, exige a queda, basicamente a queda, elas, as pessoas que acham que você é um sucesso, elaz exigem que você caia no abismo. Uma queda lenta, elas querem continuar se divertindo, elas exigem isso. Exigem que voicê dê uma despirocada, exigem que você beba, que você tenha problemas com a droga. É bom também que você tenha problemas com a polícia, por causa do problema com a droga. Exigem que você entre e saia muitas vezes de clínicas para malucos. Clínica de reabilitação, eles gostam diso, não porquê você esta tentando sair da merda, mas porque eles estão tendo a oportunidade de sentir dó de você. Isso é o melhor para eles, a compaixão. Você precisa fazer tudo isso, o sucesso exige estas coisas. E você precisa se matar também. Isso também faz parte do sucesso.

P. Melo

terça-feira, 8 de junho de 2010


Errei, a vida inteira tinha sido assim, errar, largar coisas pela metade, fazer malfeito, errar. Nunca consegui aprender matemática. Nem química. Nunca entendi as palavras que eles usam nos jornais. Viviam desenhando orelha de burro nas capas dos meus cadernos, enquanto, no recreio, eu observava as crianças comerem lanches Mirabel.

[...]

A realidade mente, às vezes eu sinto isso, alguma coisa fora de mim mentindo, inventando coisa para me tapear. Aquele dia foi assim, mas não me importei. Masquei chicletes e cantei e deixei o tempo passar.

[...]

Tem coisas que não gosto de viver, passar por aquilo, gosto quando elas já foram vividas, gosto das lembranças.

[...]

Eles me humilharam e eu disse, vocês são legais. Eles me fizeram ter vergonha de ser o que era, de ter vindo de onde vim, de ter o que eu tinha, e eu disse, vocês são legais. Eles me desprezaram. Eles me rebaixaram, e eu achei aquilo certo, achei aquilo correto. Foi isso.


P. Melo




Vivemos assim, ele continuou. É verdade, eu pensei, grades, muros, cacos de vidro, tenho tudo isso dentro de mim, pedra, lama, tigres no meu coração. Farol, quem quer parar em farol? Não paramos em faróis, ele disse. Nossa alma é um inferno. Não damos gorjeta. Não abrimos os vidros. Não olhamos para os lados. Não olhamos para trás. Não saímos de casa. Nós sentimos medo. Pânico. Estamos inconformados. Temos ódio em nossos corações. Um inferno, a nossa alma.

P. Melo

domingo, 6 de junho de 2010


Às vezes é preciso recolher-se. O coração não quer obedecer, mas alguma vez aquieta; a ansiedade tem pés ligeiros, mas alguma vez resolve sentar-se à beira dessas águas. Ficamos sem falar, sem pensar, sem agir. É um começo de sabedoria, e dói. Dói controlar o pensamento, dói abafar o sentimento, além de ser doloroso parece pobre, triste e sem sentido. Amar era tão infinitamente melhor; curtir quem hoje se ausenta era tão imensamente mais rico. Não queremos escutar essa lição da vida, amadurecer parece algo sombrio, definitivo e assustador. Mas às vezes aquietar-se e esperar que o amor do outro nos descubra nesta praia isolada é só o que nos resta. Entramos no casulo fabricado com tanta dificuldade, e ficamos quase sem sonhar. Quem nos vê nos julga alheados, quem já não nos escuta pensa que emudecemos para sempre, e a gente mesmo às vezes desconfia de que nunca mais será capaz de nada claro, alegre, feliz. Mas quem nos amou, se talvez nos amar ainda há de saber que se nossa essência é ambigüidade e mutação, este silencio é tanto uma máscara quanto foram, quem sabe, um dia os seus acenos.


L. Luft
Tenho dias lindos, mesmo quietinhos.


C.F. Abreu





Quando partiu, levava as mãos no bolso, a cabeça erguida. Não olhava para trás, porque olhar para trás era uma maneira de ficar num pedaço qualquer para partir incompleto, ficado em meio para trás. Não olhava, pois, e, pois não ficava. Completo, partiu.


C.F. Abreu




Frágil – você tem tanta vontade de chorar, tanta vontade de ir embora. Para que o protejam, para que sintam falta. Tanta vontade de viajar para bem longe, romper todos os laços, sem deixar endereço. Um dia mandará um cartão-postal de algum lugar improvável. Bali, Madagascar, Sumatra. Escreverá: penso em você. Deve ser bonito, mesmo melancólico, alguém que se foi pensar em você num lugar improvável como esse. Você se comove com o que não acontece, você sente frio e medo. Parado atrás da vidraça, olhando a chuva que, aos poucos começa a passar.


C.F. Abreu




"Basta me segurar pela nuca e eu derreto, viro pão com manteiga, sirva-se."


M. Medeiros