
Errei, a vida inteira tinha sido assim, errar, largar coisas pela metade, fazer malfeito, errar. Nunca consegui aprender matemática. Nem química. Nunca entendi as palavras que eles usam nos jornais. Viviam desenhando orelha de burro nas capas dos meus cadernos, enquanto, no recreio, eu observava as crianças comerem lanches Mirabel.
[...]
A realidade mente, às vezes eu sinto isso, alguma coisa fora de mim mentindo, inventando coisa para me tapear. Aquele dia foi assim, mas não me importei. Masquei chicletes e cantei e deixei o tempo passar.
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Tem coisas que não gosto de viver, passar por aquilo, gosto quando elas já foram vividas, gosto das lembranças.
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Eles me humilharam e eu disse, vocês são legais. Eles me fizeram ter vergonha de ser o que era, de ter vindo de onde vim, de ter o que eu tinha, e eu disse, vocês são legais. Eles me desprezaram. Eles me rebaixaram, e eu achei aquilo certo, achei aquilo correto. Foi isso.
P. Melo

Vivemos assim, ele continuou. É verdade, eu pensei, grades, muros, cacos de vidro, tenho tudo isso dentro de mim, pedra, lama, tigres no meu coração. Farol, quem quer parar em farol? Não paramos em faróis, ele disse. Nossa alma é um inferno. Não damos gorjeta. Não abrimos os vidros. Não olhamos para os lados. Não olhamos para trás. Não saímos de casa. Nós sentimos medo. Pânico. Estamos inconformados. Temos ódio em nossos corações. Um inferno, a nossa alma.
P. Melo
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