terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são referências, só. Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca. Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera. Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo o que o amor tem de indefinível. Honestos existem aos milhares, generosos tem às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó. Mas só o seu amor consegue ser do jeito que ele é.

M. Medeiros

domingo, 19 de dezembro de 2010

Nada te obriga a responder nem nada. Pode ficar em silêncio, se você tiver vontade. Mas estou aqui, continuo aqui não sei até quando, e quando e se você quiser, precisar, dê um toque. Te quero imensamente bem.

C. F. Abreu
Sou composta por urgências: Minhas alegrias são intensas, minhas tristezas, absolutas. Me entupo de ausências, me esvazio de excessos.

C. Lispector



E ficamos ali... somando nossas ilusões, nossos temores e começando já a somar nossas saudades.
M. de Assis



Ainda bem que sempre existe outro dia. E outros sonhos. E outros risos. E outras coisas.

C. F. Abreu

sábado, 18 de dezembro de 2010

Restaram as fotos na parede, o relógio de pulso marcando dez minutos atrasado e o copinho de pinga. Sentada, pensando, não sei se fiz a escolha certa. Nem quero saber também: já foi, já foi.
E agora dá um arrependimento daquilo que nem ao menos fiz. Por mais que eu finja ser não-sentimental, sinto o coração se fechando quando ninguém sussura ao meu ouvido, na hora de dormir:
"Durma bem, meu amor".
A vida acontecendo e eu parada. Machucada. Incrível pensar que você me feriu e saiu intacto. Não: difícil pensar que é algo extremamente natural que se sofra por amor. Esse sentimento que me dá ódio.

R. Virgínio



Acho maravilhoso perceber o quanto algumas vidas interagem com a nossa de um jeito tão mágico e bonito(...) Todo encontro que verdadeiramente nos toca é uma espécie de milagre num mundo de bilhões de seres humanos. Algumas pessoas a gente nem imaginava que existiam, mas, meu Deus, que agrado bom é para a alma descobrir que vivem. Que estão por aqui conosco. Pessoas que fazem muita diferença na nossa jornada, com as quais trocamos figurinhas raras para o nosso álbum.

A. Jacomo


Eu vou nomeando meus sonhos um por um. Colocando metas, fazendo projetos, com os dedos cruzados e minhas melhores vibrações. Claro que eu me frustro, faz parte da vida. Mas meu chão eu fiz de mola. Posso cair todos os dias, mas o resultado da minha queda é o impulso.


A gente batalha tanto pra perder a inocência e finalmente enxergar as coisas com clareza, que nos permitimos endurecer durante o caminho para finalmente alcançarmos este estado. Nem tudo que a gente conserva de puro merece ser abandonado. Assim como os anos não anulam o que já foi vivido, a maturidade não anula o que já foi sonhado!

F. Gaona



De repente, a gente vê que perdeu ou está perdendo alguma coisa, morna e ingênua, que vai ficando no caminho que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado pela beleza do que aconteceu há minutos atrás.

C. F. Abreu

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Se eu tivesse procurando uma oportunidade para cair fora daquele lodo, ali estava ela, melhor impossível. Mas eu não estava procurando nada, Hoje, quando olho pra trás, vejo as coisas todas se encaixando, formando fios, os fios tecendo uma história, uma história terrível, mas na época, eu não via nada.


A verdade é que, em matéria de amor, não há casualidade. Nós inventamos o amor. Claro, temos um senso de direção instintivo, nossos hormônios são a seta, imaginamos o lugar onde ele possa estar escondido, o amor, e metemos nossa mão lá dentro, para ver o que acontece.


Foi isso que o feminismo deu à mulher moderna, perderam o mistério, mas não se importam com isso, porque o que elas querem é que os homens digam que as mulheres são competentes, embora tenham ficado fora da filosofia, ele disse, da ciência, durante muito tempo, antes, se você quisesse conquistar uma mulher, ele disse, era só dizer que ela era bonita, hoje isso não cola, você tem que dizer que ela é competente, racional, prática e poliglota.


Quando você se casa, pensa que aquilo não vai acontecer com você. Mas acontece. O tempo passa e chega o dia em que você está lá ao lado daquela mulher, na mesa, na sala, na cama, em qualquer lugar, e você se dá conta, acabou. No início, se esforça, sente pena, pena de si mesmo, da mulher, que diabo está acontecendo? Acaba, é uma merda, mas é assim, o amor acaba. Você matou para ficar com ela, você ganhou dinheiro e construiu a casa que ela queria morar, nada disso vai adiantar. O amor acaba do mesmo jeito.


Quando você decide matar um sujeito, é bom saber, a pior fase é a preparação. É como se esticassem seus nervos de um lado e os prendessem no outro, fora do seu corpo. Os detalhes são de amargar. Você tem que pensar em tudo, principalmente nas mentiras que você vai contar depois, e na maneira que vai contá-las.




P. Melo
Alegria e tristeza não são como óleo e água. Elas co-existem.


Ensaio Sobre a Cegueira

domingo, 1 de agosto de 2010

É isso: tudo está ao alcance do homem e tudo lhe escapa, em virtude de sua covardia... Já virou até axioma. Coisa curiosa a observar-se: que é que os homens temem, acima de tudo? – O que for capaz de mudar-lhes os hábitos: eis o que mais apavora...


Ora veja... é o que sempre acontece com as pessoas românticas: enfeitam uma criatura, até o último momento, com penas de pavão, e não querem ver, vela, senão o que é bom, muito embora sentindo tudo ao contrário. Jamais querem, antecipadamente, das às coisas o seu devido nome. Essa simples idéia lhes parece insuportável. A verdade, repelem-na com todas as forças, até o momento em que aquela pessoa, engalanada por elas próprias, lhes mete um murro na cara.


Os sonhos de um homem doente tomam, sempre, um relevo extraordinário a ponto de a própria realidade confundir-se com eles. O quadro que, assim, se desenrola é por vezes monstruoso, mas o fundo, no qual se desenvolve, e todos os meandros da representação são, por sua vez, de tal modo verossímeis, cheios de minúcias tão imprevistas, tão engenhosas e tão adequadas, que o próprio indivíduo que os sonha seria, certamente, incapaz de inventá-los acordado.



F. Dostoiévsky

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Sente-se amado aquele que se sente aceito, que se sente bem-vindo, que se sente inteiro. Sente-se amado aquele que tem sua solidão respeitada, aquele que sabe que não existe assunto proibido, que tudo pode ser dito e compreendido. Sente-se amado quem se sente seguro para ser exatamente como é, sem inventar um personagem para a relação, pois personagem nenhum se sustenta muito tempo. Sente-se amado quem não ofega, mas suspira; quem não levanta a voz, mas fala; quem não concorda, mas escuta.



Beijo é maravilhoso porque você interage com o corpo do outro sem deixar vestígios, é um mergulho no escuro, uma viagem sem volta. Beijo é uma maneira de compartilhar intimidades, de sentir o sabor de quem se gosta, de dizer mil coisas em silêncio. Beijo é gostoso porque não cansa, não engravida, não transmite o HIV. Beijo é prático porque não precisa tirar a roupa, não precisa sair da festa, não precisa ligar no dia seguinte. E sem essa de que beijo é insalubre porque troca-se até 9 miligramas de água, 0,7 grama de albumia, 0,18 de substâncias orgânicas, 0,711 miligrama de matérias gordurosas e 0,45 miligrama de sais, sem contar os vírus e as bactérias. Quem está preocupado com isso? Insalubre é não amar.



Me permitir ser um pouco insignificante. E na minha insignificância, poder acordar um dia mais tarde sem dar explicação, conversar com estranhos, me divertir fazendo coisas que nunca imaginei, deixar de ser tão misteriosa pra mim mesma, me conectar com as minhas outras possibilidades de existir.




Paciência só para o que importa de verdade. Paciência para ver a tarde cair. Paciência para tomar um cálice de vinho. Paciência para a música e para os livros. Paciência para escutar um amigo. Paciência para aquilo que vale nossa dedicação. Pra enrolação, atalho. O menor possível.



M. Medeiros

domingo, 20 de junho de 2010


É difícil carregar a solidão, mas mais difícil é carregar uma companhia

L. F. Telles

terça-feira, 15 de junho de 2010


Reinventar-se também significa criar um novo personagem para assumir determinadas facetas que o próprio ego já não dá conta de administrar...


(Plastic Dreams - Melissa et Circenses) ARAUJO, Jackson

domingo, 13 de junho de 2010


Ninguém se importa. Ninguém se importa com ninguém, o homem é apenas um pedaço de carne, esta bem? Carne de porco, carne de vaca, quem se importa?

[...]

Eu sou nulher diferente, não ligo para esses preconceitos idiotas, eu ovu te contar uma coisa, eu tinha doze anos, eu acordei na boléia do caminhão do meu pai. Acordei e estava sozinha, desci no carro chamando meu pai, sabe onde estava meu pai? No acostamento, caído, eu vi sangue, muito sangue, vi que ele não respirava mais, sabe o que eu fiz? Lembrei de um filme que assisti na televisão, a mulher se fodia o tempo todo, aí ela se encheu, levantou a espada, não tinha espada, não sei por que eu falei espada, ela se encheu e disse para o céu: nunca mais hei de passar fome. Eu fiz a mesma coisa, nada nesse mundo vai ser capaz de me fazer sofrer, eu disse, nunbca mais, eu disse, ninguém, nunca, eu prometi, e foi assim.

[...]

Tem sempre alguma coisa, alguma coisa aqui dentro, aqui no meu tórax, alguma coisa viva e enferrujada, eu sinto que você também é assim, nós dois, a gente prepara a felicidade, um futuro legal, mas quando o futuro chega, a gente não se sente bem dentro dele.

[...]

O medo é uma coisa engraçada. Ele vai afundando o seu peito, inchando a sua barriga, e sem que você perceba tudo o que você tem de bom começa a vazar. Pelo menos, foi assim que aconteceu comigo.

[...]

Eu não estava muito longe de entender que existe o lado de lá e o lado de cá, e que não se muda de lado. Nunca. Você pode até pensar que mudou, eles fazem você pensar isso, entre e feche a porta, eles dizem, você entra, você acha que está ali, você fecha a porta, você acha que mudou, mas não, na verdade não é mudança, se você está do lado de lá é porque eles estão precisando de alguém para lavar o banheiro de mármore deles. É isso simplesmente.

[...]

Às vezes, eu disse, às vezes, eu tenho a impressão de que o mundo está de costas para o homem, o homem de costas para Deus, Deus de costas para o mundo, uma zorra completa, você não tem?

[...]

Kamikaze, você se lembra? Eu tenho uma teoria, Érica. O homem, Érica, o homem quando lambe a fama, perde o caráter. É isso. Você fica famoso eo problema da fama é que ela faz você acreditar no que os outros dizem de você. Você entra naquela paisagem, é azul, e voc ê vai escorregando naquela lama azul, vai rolando ladeira abaixo até se foder completamente. Foi o que aconteceu comigo, Não posso dizer que eu demorei para aprender a lição. Eu aprendi rápido demais, logo no primeiro dia, aprendia todo dia, para falar a verdade. Mas aprendia e fazia tudo para esquecer no dia seguinte, essa era o problema. O sucesso, Érica, o sucesso, isso é uma regra, o sucesso não pode durar. O sucesso exige algumas coisas, exige a queda, basicamente a queda, elas, as pessoas que acham que você é um sucesso, elaz exigem que você caia no abismo. Uma queda lenta, elas querem continuar se divertindo, elas exigem isso. Exigem que voicê dê uma despirocada, exigem que você beba, que você tenha problemas com a droga. É bom também que você tenha problemas com a polícia, por causa do problema com a droga. Exigem que você entre e saia muitas vezes de clínicas para malucos. Clínica de reabilitação, eles gostam diso, não porquê você esta tentando sair da merda, mas porque eles estão tendo a oportunidade de sentir dó de você. Isso é o melhor para eles, a compaixão. Você precisa fazer tudo isso, o sucesso exige estas coisas. E você precisa se matar também. Isso também faz parte do sucesso.

P. Melo

terça-feira, 8 de junho de 2010


Errei, a vida inteira tinha sido assim, errar, largar coisas pela metade, fazer malfeito, errar. Nunca consegui aprender matemática. Nem química. Nunca entendi as palavras que eles usam nos jornais. Viviam desenhando orelha de burro nas capas dos meus cadernos, enquanto, no recreio, eu observava as crianças comerem lanches Mirabel.

[...]

A realidade mente, às vezes eu sinto isso, alguma coisa fora de mim mentindo, inventando coisa para me tapear. Aquele dia foi assim, mas não me importei. Masquei chicletes e cantei e deixei o tempo passar.

[...]

Tem coisas que não gosto de viver, passar por aquilo, gosto quando elas já foram vividas, gosto das lembranças.

[...]

Eles me humilharam e eu disse, vocês são legais. Eles me fizeram ter vergonha de ser o que era, de ter vindo de onde vim, de ter o que eu tinha, e eu disse, vocês são legais. Eles me desprezaram. Eles me rebaixaram, e eu achei aquilo certo, achei aquilo correto. Foi isso.


P. Melo




Vivemos assim, ele continuou. É verdade, eu pensei, grades, muros, cacos de vidro, tenho tudo isso dentro de mim, pedra, lama, tigres no meu coração. Farol, quem quer parar em farol? Não paramos em faróis, ele disse. Nossa alma é um inferno. Não damos gorjeta. Não abrimos os vidros. Não olhamos para os lados. Não olhamos para trás. Não saímos de casa. Nós sentimos medo. Pânico. Estamos inconformados. Temos ódio em nossos corações. Um inferno, a nossa alma.

P. Melo

domingo, 6 de junho de 2010


Às vezes é preciso recolher-se. O coração não quer obedecer, mas alguma vez aquieta; a ansiedade tem pés ligeiros, mas alguma vez resolve sentar-se à beira dessas águas. Ficamos sem falar, sem pensar, sem agir. É um começo de sabedoria, e dói. Dói controlar o pensamento, dói abafar o sentimento, além de ser doloroso parece pobre, triste e sem sentido. Amar era tão infinitamente melhor; curtir quem hoje se ausenta era tão imensamente mais rico. Não queremos escutar essa lição da vida, amadurecer parece algo sombrio, definitivo e assustador. Mas às vezes aquietar-se e esperar que o amor do outro nos descubra nesta praia isolada é só o que nos resta. Entramos no casulo fabricado com tanta dificuldade, e ficamos quase sem sonhar. Quem nos vê nos julga alheados, quem já não nos escuta pensa que emudecemos para sempre, e a gente mesmo às vezes desconfia de que nunca mais será capaz de nada claro, alegre, feliz. Mas quem nos amou, se talvez nos amar ainda há de saber que se nossa essência é ambigüidade e mutação, este silencio é tanto uma máscara quanto foram, quem sabe, um dia os seus acenos.


L. Luft
Tenho dias lindos, mesmo quietinhos.


C.F. Abreu





Quando partiu, levava as mãos no bolso, a cabeça erguida. Não olhava para trás, porque olhar para trás era uma maneira de ficar num pedaço qualquer para partir incompleto, ficado em meio para trás. Não olhava, pois, e, pois não ficava. Completo, partiu.


C.F. Abreu




Frágil – você tem tanta vontade de chorar, tanta vontade de ir embora. Para que o protejam, para que sintam falta. Tanta vontade de viajar para bem longe, romper todos os laços, sem deixar endereço. Um dia mandará um cartão-postal de algum lugar improvável. Bali, Madagascar, Sumatra. Escreverá: penso em você. Deve ser bonito, mesmo melancólico, alguém que se foi pensar em você num lugar improvável como esse. Você se comove com o que não acontece, você sente frio e medo. Parado atrás da vidraça, olhando a chuva que, aos poucos começa a passar.


C.F. Abreu




"Basta me segurar pela nuca e eu derreto, viro pão com manteiga, sirva-se."


M. Medeiros