UMA NOITE DE ANO NOVO
O marejar das águas, o ruído rouco e falho, o calor, a ardência cômoda e por fim, a explosão.
Naquele primeiro de janeiro, era na praia que eu me encontrava. Minhas viradas são sempre assim: areia, mar, fogos, champagne e eu mesma. É tudo o que eu preciso. Olho pro céu, pra todo aquele passado que explode no ar e chora lagrimas de recordações e me encontro, é como se tudo o que eu jamais tivesse dito, como se tudo aquilo que tivesse ficado entre mim e mim mesma fosse confessado ao mundo, e assim, como numa troca de corações, eu nascesse de novo. Por 15 minutos, eu não sei que eu sou, e logo em seguida, sou mais uma vez a dona de mim, a dona dos sentimentos, das realidades, das doses de vida que me tomam na euforia de uma noite de champagne e cama vazia.
Naquele primeiro de janeiro, apenas uma coisa foi diferente. Acordei. Entre os lençóis brancos de algodão que emaranhados tentavam cobrir pedaços de mim, havia algo mais. Não era nem um dono de um corpo rijo e viril, de pele branca demasiadamente alheia ao sol, de cabelos escuros e aquele olhar apertado como se escondesse o mar dentro deles. Mas eram talvez os vestígios de alguém assim. O champagne não foi pouco, as risadas nem os toques foram dessemelhantes, disso eu lembro, ou ainda sinto. Não há muito o que recordar de noites assim, apenas que ao entrarmos, deixei a porta sem tranca e assim ela continuava, mas dela pra dentro agora havia apenas um ser, uma vida, um respiro, um coração que pulsava exultantemente numa manhã ensolarada de Ano Novo.
Logo, voltei para casa. Para o serviço. Não para a rotina, já que nunca a tive. Mas voltei para o lugar de onde eu saíra, de onde ele saíra e que conjuga todos os pretéritos da minha vida, não os melhores, que fique claro. Era mais um ano, mais um mês, mais uma semana, mais um dia como qualquer outro pós data comemorativa, um após o outro. Eu morava sozinha, num apartamento no centro de São Paulo, nem grande nem pequeno, poucas paredes e uma decoração não muito atenta. Não passava muito tempo nele, nem recebia muitas visitas.
“A volta da ausência conhecida e perdida, calma e revigorante que cuidou que o momento de uma noite qualquer fosse de esplendor ou inevitavelmente amedrontador, fez com que a pálpebra tremulasse, as pestanas reagissem e a esperança marcante dos olhos iluminasse e trabalhasse com afinco durante os melhores momentos do novo dia.”
Ainda não sei como, mas foi assim que narrei o meu acordar e o meu dia, prestes a abrir os olhos de uma noite de cama cheia. Um homem dessa vez. Não haviam lençóis de algodão emaranhados, não havia roupa, não em cima da cama. Havia apenas um corpo cansado sobre um travesseiro e eu. Ao entrarmos deixei a porta sem tranca e assim ela continuava.Noites como essa se repetiram, não digo que eram comuns, afinal eu não morava num Motel. Mas quando ocorriam, não eram em nada diferentes, seguidas de um café da manhã e um Adeus sem volta nem lembranças, assim: um Adeus.
Nunca fui ligada à família, aos sentimentos ou namorados, aos muitos amigos ou aos sonhos de menina. Talvez eu tenho sido criada para as ações às escondidas, segredos guardados num sorriso, que dizem, singelo. E de risos em gargalhadas de pretéritos guardados, o fim do ano retorna. Areia, mar, fogos e doses de vida que me tomam na euforia de uma noite de champagne e cama vazia. Sim. Cama vazia. Sem vestígios, porta trancada, sem coração exultante nem manhã ensolarada. Eu nunca imaginei que aquela única noite fosse se repetir, tinha sido tão alheia a tudo, que não importa se tenha sido, sem duvida, minha melhor virada, não existia, foi como as faíscas de alegria exuberante que pulam e banham o céu, o ar, a mente à meia-noite, o brilho contagia, mas logo se apaga.
Confesso que já me peguei pensando o por quê de morarmos ambos, numa cidade tão grande, ou o por quê de nunca havermos nos encontrado. Pensamentos de uma mente vazia, nada mais. Alguns anos foram passando, meus vinte e poucos, já eram vinte e muitos, namorados já tinham surgido, já tinham se perdido, eu já tinha mudado de apartamento – não que ele não continuasse com poucas paredes e uma decoração pouco atenta -, meu serviço já tinha tido seus altos e a praia continuava lá, assim como meu apartamento, meu quarto e minha cama – intacta. Desde aquele primeiro de janeiro, ela só viu a mim e os lençóis esticados, nada mais. Não há um motivo, o único que imagino talvez seja que eu nunca mais encontrara em meio à areia, aquele olhar apertado que escondia as ondas que eu pularia à meia-noite, nem tampouco um olhar parecido.
Um noite, exatamente quando a multidão inspirava o ultimo ar do ano velho, prontos a desejar a todos um Feliz Ano Novo, eu o vi. O quão maravilhoso pode ser o marejar das águas, o ruído rouco e falho, o calor, a ardência cômoda e por fim, a explosão, a lágrima, os fogos e o choro? Não consigo descrever o quão inexoravelmente belo foi vê-lo chorar, o quão magnânimo foi vê-lo, apenas vê-lo, como eu todo ano fazia à procura de um reflexo perfeito. Mais velho, mas não menos bonito, assim que me viu me senti coberta e perdida numa maré alta que me engolia. Na sua mão esquerda, uma aliança. Na manhã seguinte, entre os lençóis brancos de algodão que emaranhados tentavam cobrir pedaços de mim, havia algo mais. Não era nem um dono de um corpo rijo e viril, de pele branca demasiadamente alheia ao sol, de cabelos escuros e aquele olhar apertado como se escondesse o mar dentro deles. Mas eram talvez os vestígios dele. O champagne não foi pouco, as risadas nem os toques foram dessemelhantes, disso eu lembro e ainda sinto. Há muito o que recordar de noites assim, mas ao entrarmos, deixei a porta sem tranca e assim ela continuava, mas dela pra dentro agora havia apenas um ser, uma vida, um respiro, um coração que pulsava exultantemente e despedaçado numa manhã ensolarada de Ano Novo.
26/12/2009
BONECA DE PANO VELHA
Sabe, ontem, a vovó me levou pra comprar presente pra mamãe, amanhã é dia das mães, e a vovó disse que queria “inovar”. Seja lá o que signifique isso.
Todo ano, sempre que tinha esses dias de presente, desses que o filho que dá presente, mamãe deixava dinheirinho em baixo do vaso de violeta em cima da mesa. Aí eu acordava cedinho, me arrumava já com a roupa da escola e ia com a vovó nas lojinhas de 1 real da avenida comprar presente pra mamãe; um dia era de aniversário, outro de dias das mulheres, dia das mães e natal. Tem um monte de coisinha lá em casa que eu que dei pra ela, e ela sempre sorria e me abraçava como se fosse o melhor presente do mundo.
Ano passado na escolinha, a tia-professora (porque também tinha a tia do lanche e a tia da pirua) pediu pra gente fazer um cartão com uma música para as mães. Eu peguei um papel roxo e escrevi com caneta prata aquela música que tocava no rádio que começava assim: “Eu tenho tanto pra lhe falar, mas com palavras não sei dizer, como é grande meu amor por você [...] mamãe”, quando dei pra ela, achei que não tinha gostado porque ela começou a chorar, mas aí , ela me abraçou e disse que me amava muito.
Até que o papai chegou com uma super caixa pra ela. Fui correndo ver o que era - sempre sinto como se todos os presentes fossem pra mim - pedi pra mamãe abrir logo, e... Tcharam... Era um microondas! Bem que aqueles dois estavam precisando de algo pra esquentar a relação... Mas a mamãe pareceu nem ligar, deu um beijo na boca do pai, daqueles que dão estalinhos sabe? E foi isso, com um “Obrigada” bem cochichadinho que ninguém ouviu. Aí ele subiu pra tomar banho e sentamos eu e ela no sofá.
Hoje a vovó me pegou cedo e fomos lá pro centro da cidade, nunca tinha ido lá. Pegamos o ônibus em frente de casa - sempre adorei a idéia de um carro grande que levasse todo mundo pra qualquer lugar - depois pegamos um trêm que andava em baixo da terra. Na hora de entrar, a porta apitou bem na hora que a vovó tava passando, fiquei com medo dela ficar presa e eu perder ela, mas deu tempo e ainda tinha dois bancos vazios pra gente sentar.
Teve uma hora que entrou um tio todo com roupa de casamento: casaco, calça, camisa e gravata. Segurando uma pasta igual a da tia-professora. Perguntei pra vovó se ela ia dar aula pra gente chique, só que o tio viu que eu tava falando dele, achei que ele fosse ficar bravo, mais ele sorriu pra mim. Aí a vovó explicou pra ele o que a gente tava falando, mas a vovó fala alto né, tanto que a menina do banco do lado que tava ouvindo musica parou pra ouvir, e riu da minha cara envergonhada. O tio disse que não era professor não, aí ele desviou os olhos de mim, mas fiquei olhando, ele parecia legal, mas de repente os dentes sumiram e o sorriso também, deu até uma coisinha lá dentro sabe? Talvez tudo que ele quisesse fosse realmente ser professor, ensinar pro mundo o que nem ele sabia. Acho que eu queria dar abraço no tio, mas a mamãe sempre disse pra eu não falar com estranhos, quem dirá abraçar né? Aí eu percebi que a vovó já tinha mudado de assunto e tava falando há um tempinho já, sozinha , tadinha!
Lá no centro, eu me senti uma formiguinha carregada pela mão, nunca tinha visto tanta gente junta, e tanta gente feia - a mamãe não pode me ouvir falando isso. Tinha um homem lá que tinha cara de mau, eu falei pra vovó, mas aí ela disse que é porque eles comiam criancinhas e por isso eu tinha que ficar perto dela. A gente andou mais um pouco e eu achei o presente da mamãe, a gente comprou um colar com o Espírito Santo pinduradinho – mamãe sempre acreditou nessas histórias da Bíblia – e dois brincos que combinavam com o colar, achei que ela ia ficar linda, mais linda ainda. Daí viemos embora.
Pra voltar, foi o mesmo caminho, trêm em baixo da terra e ônibus. A vovó já tava brigando comigo porque eu não largava aquele colar. Mais era tão lindo, queria tanto ver a mamãe usando ele! Quando fui falar pra vovó de novo, que a mamãe ia ficar linda, minha voz não saiu, o olhar de pavor da vovó me fez sentir medo, acho que meus olhos perguntaram por mim, o que estava acontecendo. Ela não queria desviar os olhos de mim, não queria que eu tirasse os olhos dela, mais eu tirei. Tinha um homem com cara de mau no ônibus com uma daquelas armas de filmes na mão. Ele tava pegando tudo de todo mundo. Quando ele veio perto de mim, eu abracei a vovó; ele quis pegar o presente da mamãe, mais eu não deixei. Aí ele me puxou da vovó, eu falei pra ele parar, ela tava chorando já. Mas ele não ouviu, ele só precisava do Espírito Santo, só que eu não ia dar! A vovó já tava gritando, tava tudo uma bagunça em volta, mas eu só olhava pra ele e ele só olhava pra minha mão dentro do bolso. Aí eu berrei pra ele me soltar, eu disse que ele era mau e que comia criancinhas, por isso eu tinha que ficar perto da vovó...
Aí tudo ficou azul e vermelho, meu olho ardia com aquele monte de luz e meu braço já devia estar roxo, mais eu nem sentia mais ele. Só senti que ele me puxou e tentou me levar pra fora do ônibus, eu segurei no ferro, a vovó tava ali, tava chorando muito, ela não podia ficar sozinha, a sirene tava tocando, tudo tava azul e vermelho...
Vermelho. Quando ele foi soltar a minha mão, a arma fez igual em filme “Bum”, e eu fiz igual boneca de pano velha, cai, sem dor. Não entendi porque a vovó continuava chorando, por que ela tava em cima de mim, tudo parecia tão bonito! O homem mau tinha ido embora e eu estava com o Espírito Santo, eu tava com ele, tava sim! A mamãe ia ficar tão linda com ele! A mamãe ia ficar mais linda ainda! A vovó ia ver que eu tava certa, que eu não devia ter dado pro homem mau. Mais eu tava suja, igual aquela luz, ela tinha me sujado toda, eu tava toda suja de luz vermelha, não queria que a mamãe me visse daquele jeito, ela ia brigar comigo!
Quase falei pra vovó parar de me abraçar tanto, mas ela devia estar feliz pela minha coragem. Aí eu falei pra ela que tava com sono, que ia dormir ali no braço dela, mais era pra ela me acordar, antes de ver a mamãe, porque o Espírito Santo tava comigo. Ela disse alguma coisa, mais eu não ouvi...
Eu tava voando, nunca tinha sonhado tão lindo, sentia até o cheiro das violetas de cima da mesa da mãe. Tudo era lindo, e o Espírito Santo também.
10/05/2010
BOLO DE CHOCOLATE
Depois de um dia tão farto, tão ditoso, ao mesmo tempo vazio e assim, cansativo. Tudo o que eu mais queria, era descer aquela rua de curvas e calçadas intermináveis, abrir o portão de casa e encontrar lá dentro, algo que eu conhecia, que eu sempre tive certeza que jamais me faria mal, pelo contrario, algo que saciava meu desejo e satisfazia meu apetite por completo. Naquela cozinha, sobre a mesa, da mesma forma que eu havia deixado, estava um dos, se não, o melhor bolo de chocolate que já experimentei. E para findar meu dia, talvez fosse apenas isso que eu precisava.
Ia caminhando distraído, impaciente, indeciso e confuso. Confuso, mas no fundo, e nem tão lá no fundo assim, satisfeito.
Cheguei ao portão, olhei pra trás e sorri. Era como se naquele pedaço de rua eu tivesse deixado fragmentos de mim, do meu dia, do meu pensamento, da minha vida. Ali no portão, tudo o que eu mais queria era entrar na cozinha e suprir toda aquela necessidade de chocolate que só fazia crescer, era ansiedade, devia ser.
Vi-o sobre a mesa de longe, deixei o celular, a carteira e o sapato na sala e fui à cozinha. Peguei a faca do lado esquerdo da primeira gaveta e sentei-me na mesa. Destampei o bolo e.
Não veio aquele aroma costumeiro, não senti como se sonhasse acordado, nada. Ainda assim, insisti, cortei-o. Não era meu aniversário, mas cortei-o de baixo para cima, dizem que é só juntar o corte com o pedido, que ele se realiza, foi o que fiz. Pedi com toda minha força, pedi. Assim, peguei meu pedaço. Entretanto, como eu jamais imaginaria, o bolo havia embolorado, meu tão desejado pedaço de bolo estava quase por inteiro tomado por manchas que não o pertenciam. Não desisti. Coloquei aquele pedaço de lado e cortei outro. Igual. Pensei em tirar apenas a parte dispensável e comê-lo, mas não havia mais o que salvar ali. Por incrível que pareça, estava inteiramente danificado.
Um bolo de chocolate, tão aparentemente deleitoso, reduzido a nada. Nunca mais daria prazer a alguém, nunca mais seria sentido, cheirado, desejado. Ta, posso estar sendo muito hiperbólico. Mas a mim, esse bolo nunca mais poderia me fazer querê-lo. Acabou. Era hora de ceder à cama e esperar para que no mínimo, no dia seguinte, a padaria tivesse outro.
Mas, no instante que resolvi ir dormir, me passou algo pelo juízo. Por estar daquela forma, com aquelas manchas, aquela falta de aroma,tudo isso tirava as qualidades dele, de “um bolo de chocolate”? Um bolo afrodisíaco, teoricamente irresistível e tranqüilizante? Juro que tentei olhá-lo com compaixão, com um olhar de quem só sabe amar, materno e maduro. Mas não encontrei respostas. Quem sabe, eu não tenha me questionado assim, por querer ainda, me saciar. Não era certo. Me faria mal. Mas no fundo, eu não queria esperar pelo dia seguinte, não queria espera nada, minha impaciência crescia e era como se eu me descontrolasse.
Meu reflexo na janela não era meu. Não havia motivo para toda aquela cena por um mísero bolo. Ou talvez eu estivesse apenas estivesse pensando que eu não queria levá-lo ao lixo, descartá-lo e desvalorizar meu dinheiro. Ou, por mais egoísta que seja, não queria dá-lo nas mãos de outro, dá-lo aos lixeiros até que um outro qualquer, mais necessitado que eu, viesse a desconsiderar seus defeitos e comê-lo. Não. O bolo era meu.
Apaguei a luz e me direcionei ao quarto. Não importa o que será do bolo amanhã. Agora, eu prefiro dormir, sonhar e rir, afinal, nos sonhos tudo é possível. Inclusive comer um bolo de chocolate como ninguém jamais comeu.
03/04/2010
BRANCO DEMAIS PARA SER COLORIDO
Da forma como tudo se encaminhou, não sei mais por onde passei, mas ainda lembro com presteza tudo que vivi.
Não há como explicar como as coisas ocorrem, mas me parece ao longo do tempo que as forças se perdem, a segunda vez não é tão boa quando a primeira, e eu não faço idéia de como será a terceira, mas o sentimento de ‘culpa’ ou ‘arrependimento’ já começa a bater.
Na verdade, eu acho que não, devo encarar isso como diversão pra nós dois, isso. Para ele, até mesmo um alívio, o fim da rotina cansativa, a possibilidade de diversão que há tanto esquecera. Não há aquele sentimento que todos procuram, amor, mas talvez haja algo semelhante a uma amizade. Ele parece ficar um pouco animado com tudo isso, algo novo na vida dele, novo mesmo sabe? “Uma loucura”.
Às vezes eu o ouvia sussurrando pra si mesmo: “Meu Deus, o que é tudo isso?”, quando me observava. Ao mesmo tempo, tentando disfarçar qualquer manifestação que fizesse a situação fugir do controle dele... Mas era divertido, era sim.
Sempre ouvi falar que as pessoas não conseguissem abraçar, beijar depois do ato, muito menos quando isso é casual, e pago! Conosco, não é preciso ficarmos parados buscando assunto, é só divertido, o ambiente é legal e pronto.
Ele é tão gentil comigo, me trata bem. Não parece acostumado com essas coisas, era sempre eu a fazer as propostas “indecentes”. E então, ele segurava a fala, não queria dizer uma palavra que denunciasse o que sentia; porém, seus olhos falavam sozinhos: desejava sim o que eu propunha, queria sim duas pessoas dando em cima dele ao mesmo tempo. Desejava tudo isso secretamente, mas eu consegui perceber. Foi fácil, afinal, ninguém volta num assunto que não seja em algum ponto interessante, não é? Era como se esperasse um atitude minha, até o momento que a campainha tocasse, ele fizesse uma cara de espanto, como a me repreender, mas por dentro, ainda que confuso, estaria feliz.
De qualquer maneira, isso não era a minha felicidade, não a que eu sempre sonhei. Isso parecia uma felicidade clandestina, não pertencia a mim, mas ainda assim, era que estava tomando conta dela e eu podia fazer o que eu quisesse. Foi o que eu fiz.
(Sr. James e Srtª. Villefort)
13/12/2009
NOTAS DE UMA NOITE
Durante as ultimas horas de um sábado qualquer, o silêncio da Alameda Santos e farfalhar das árvores do parque Trianon era delicadamente quebrado por risos, passos e lamúrias.
Ora passava um carro, ora o silêncio era mortal. E ali, naquele mundo recém perdido, faziam-se felizes, exploravam-se e descobriam o mundo de anos, em pequenos e tímidos toques. Resumiam Outonos, Invernos e Verões, numa simples Primavera. Luas Crescentes, Minguantes e Novas, numa grande e brilhante Lua Cheia.
Sentiam como se a noite tivesse sido feita para eles, aquela noite, noite do encontro de corpos que nunca se desencontraram.
Na Paulista, o ônibus cinza e laranja, com destino a Terra Nova II, passou. Instantes depois, o ponto estava vazio. Ouvia-se apenas o motor dos carros e a Paróquia São Luís que se manifestava ao som de doze badaladas.
O ônibus estava quase vazio, os poucos que ali estavam, dormiam com as poltronas inclinadas e nem sequer perceberam a entrada dos dois. Sentaram-se ao fundo, onde se estendiam cinco bancos, todos ali, como se os esperassem.
Não viram mais nada. Semáforos. Curvas. Rodovias. Avenidas. Cruzamentos. Viadutos.
Tudo era tanto, toda aquela vontade, aquela necessidade do outro, e ao mesmo tempo, aquele medo de aquilo terminar assim, no próximo rodar da catraca.
Tudo tão próximo, olho do olho, respirações ofegantes e tão próximas que seria possível tirar o ar do mundo, e um respirar apenas o ar do outro.
- Você acha que um dia vai gostar de mulher?
A catraca roda, entra uma mulher, diria até lindíssima por sinal.
Ele a olha, com fogo nos olhos vira e responde:
- Não.
E o último ônibus da noite que parecia até então parado volta a se mover. Violento e ávido, como a ânsia que esconde dentro de sí.
06/09/2009
GRANDES ESPERANÇAS
“É impossível manter os garotos quietos”: (dois pontos). E assim esta inquietude se marca, não há como esconder – está na face.
Assim , andando em círculos por um parque, verde, de luz, não escondia sua feição estranha. Talvez dor, talvez curiosidade, talvez novidade, algo em meios desconhecidos e incomumente singular.
Nas tantas voltas já dadas, um cigarro ainda aceso brilhava em seu tom alaranjado no chão – alguém acabara de passar por ali – sem pensar, seu circulo transformara-se em horizontais (ou verticais?), seguia um novo percurso. Na rua, ônibus verdes e brancos cruzavam as ruas e avenidas, meninos de ouro velho treinavam a coleção de prata, enquanto ele, com aquele cigarro que já ia se apagando, pensava no outro, ou seria na outra?
Seria deveras alto, pálido de olhos e cabelos escuros? Loira de olhos azuis? Andaria marcando deusas gregas pelo chão?
Verde. Atravessou a rua e seguiu por uma à direita, sentido Norte. Na placa acima lia-se “ - Fatec”, apesar de que nunca entendera o que levava pessoas àquele lugar.
O cigarro já mostrava seus últimos feixes de brasa, a linha verde não o deixava esquecer aquele cheiro confortante de menta que era exalado – odor – que o invocava á uma novidade...
Nas andanças desapercebidas, chegou a uma praça. Árvores, bancos, canteiros, portões, homens de ouro velho e alguém com um cigarro preto, com uma linha verde na mão. Estatura média; pouco peso; cabelo castanho e liso; olhos verdes e profundos; olhar medonho; tênis verde, branco e laranja; calça preta, blusa verde e o cigarro imponente – já o mencionei? – segurado por dedos longos e prematuramente vividos.
Esquecera-se que até a pouco, sua face era motivo de olhares indagadores; que um dos ônibus verde e branco que vira ai sair do Parque da Luz era o que o levaria para casa; que era no mínimo elegante ser simpático e dar pratas aos ricos de ouro velho; que o cigarro que tanto aguardara aceso por uma última tragada, apagara-se.
Adiante, numa eternidade descompassada entre passos e cardíacos, ia de encontro àqueles olhos verdes – que só então lhe notara – para fazer sabe-se lá o quê. Foi atingido implacavelmente pelo mundo de inquietudes que era aquele olhar. Manteve-o. Conheceu o suficiente para saber que aquilo completaria os impulsos de seu dia. O que impensadamente faria ali, não ficaria marcado na face, como os dois piercings que minutos antes colocara, ficaria preso e enclausurado no seu íntimo e nada mais.
Aproximou-se e aprofundou-se. Aquele era o momento.
- Posso acender meu cigarro no seu?
Não houve resposta. Estavam ocupados o suficiente para qualquer outra manifestação sem ser mútua.
Ali terminava seu dia, há tempos vinha assim: procurando por extravagâncias e sem coragem predestinada de procurá-las.
Esta tarde não tomaria seu ônibus branco e verde. Nem ele sabia onde seria seu fim.
Nem eu.
19/08/2009
GRITOS OUVIDOS
Alan Lloyd - Nostalgiaaa... Das besteiras que não fizemos ontem
Camilla Rawdon - que NÃO fizemos?
Alan - Sim, NÃO fizemos. Eu bem que tentei, mas você infelizmente estava aérea demais pra mim, não se lembra? Agora quer fingir que está tudo bem. Não é um romance, você sabe. Mas eu tentei de todas as formas fazer com que nossa relação fosse do jeito que sonhei. Mas infelizmente descobri que, pra isso, é necessário mais que simples desejo.
Camilla - Haaam... Continue, explique.
Alan - Explicar o que? Você não está vendo que não dá mais? Onde você está com a cabeça? Apenas diga-me, quem sabe eu poderei entender e sair pela porta discretamente.
Camilla - Em você.
Alan - Em mim? Em mim?!? Então por que me rejeitou a noite toda? Por que você está me evitando? Eu ligo pra você, e o celular está desligado. Eu tento te encontrar, mas seu apartamento está sempre vazio.
Camilla - O celular está desligo pra você, que nem sequer sabe o número dele. Você tenta me encontrar, mas me procura no lugar errado.
Alan - Ah, sim... Seu jeito de tentar fugir das responsabilidades. EXÍMIA no que faz. E agora, calou-se de vez? Está pensando na justificativa possível... Uma justificativa que não vem.
Camilla - Não fujo, mas sim, sou exímia no que faço. Sinto em dizer-lhe querido, mas não me justifico a você, não é necessário.
Alan - Não é necessário... Então pra você tudo acabou. É assim. Não é?
Camilla - Claro que não. Pra mim nada acaba. Mas a você, não me parece o mesmo.
Alan - Apenas estou deixando as coisas claras. Percebo que você não quer fazer isso. Eu só quero entender!!! Apenas me diga logo de uma vez! Onde estivestes a noite passada?
Camilla - E desde quando você algum dia precisou me entender? Você apenas acreditava em mi, e isso sempre bastou. Mas vêm mudando não é?
Alan - Você está fugindo do assunto central novamente. Tem como você me responder claramente? Eu preciso saber... Eu preciso saber.
Camilla - Onde eu estive a noite passada? Esse é o assunto central?
Alan - Sim, é isso que eu quero saber no momento.
Camilla - Como eu disse, não há o que esconder. Estive com ele, com Bento, em sua casa, na Rua de Matacavalos.
Alan - Não há o que esconder. Fez o que? Vamos, conte. Começou, termina. Eu sei que agüento o espetáculo até o fechar das cortinas.
Camilla - Vamos, não precisa de tanto drama. O espetáculo se inicia por lá, e termina mesmo ali. A terra é leve.
Alan - Se você foi, e gostou tanto da peça... Fique por lá. Mas antes... Tire a roupa.
Camilla - A roupa já está tirada, não a uso. Porém, estão caídas aí, ao pé de sua cama.
Então ela deitou pela última vez, os gritos foram ouvidos a metros de distância e todos, todos ficaram preocupados com o que poderia ter acontecido. Poderia? Não ouviram mais falar nela. Quando questionado isso com pouca freqüência afinal todos eram muito discretos, ele simplesmente dizia: "Ela viajou para Europa". Um lugar que não podemos classificar: céu ou inferno.
Pra ela o céu, sabemos que foi. Mas o inferno, não é tão longe assim.
23/12/2008
HERANÇAS LIDAS
Ela olhou-o pela fresta da porta, e não pode se conter, havia tirado a camisa e vestia-se para dormir, mas não pode deixar de notar na linha de suas costas, no desenho de seus músculos retesados pelo recente fato. Sally não sabia como conseguira, mas por instantes não cedera aos ardentes desejos dele. Olhava-o fixamente, e não percebeu que o vaso a seu lado estava prestes a cair. Caiu e espatifou-se no chão, Rick não pode deixar de ouvir e foi ver o que acontecera. Sally atordoada não conseguia disfarçar o que estivera fazendo até segundos antes, sua pele de rosa já estava vermelha, ela tremia. Quanto mais próximo ele chegava, mais ela saia fora de si até que ele a tocou. Seu braço enrijeceu e ela não queria, mas olhou-o. Não viu mais nada, os lábios se tocaram, e ela sentiu o desejo dele, sabia que dessa vez não se controlaria, a língua dele foi entrando como fogo queimando em sua boca e tirando-lhe todo o discernimento do que era certo ou errado. Não percebera, mas já andara alguns passos, e acabara de ouvir a porta do quarto fechar atrás de si. Ele a acariciava como nunca ninguém o tinha feito, apertava os glóbulos brancos de seus seios e brincava com a ponta do polegar com seus mamilos que endureciam à ponto de sua excitação. Sally arrancou-lhe a camisa e foi jogada à cama. As mãos de Rick sabiam onde encantá-la. Ele dentou sobre ela e ela sentia a pulsação de sua masculinidade contra ela, queria tê-lo ali, dentro dela. Ele sabia disso, e a castigava, pelo tempo que o fizera esperar. Foi descendo as mãos, pelo interior de suas pernas, Sally não gritava, não gemia, apenas sentia. Ali ele viu, ela já estava pronta pra ele.
22/12/2008
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